18 de agosto de 2016

Aguaceiro

Sentado ao lado da janela, ele contou as lágrimas que caíam do céu inundando a rua de tristeza. Sentiu o cheiro da água que inundou o espaço entre prédios com poucas luzes acesas e viu o semblante de memórias iluminado rapidamente por um relâmpago. E fechou os olhos ao som do trovão.

Ela havia voltado.

Seu corpo dançava sobre o dele feito tempestade, mudando de direção com o vento de sua respiração. Seus olhos precipitaram-se sobre os dele deixando garoar um sorriso que parecia encharcá-lo sem que ele percebesse. Molhado, ouviu o sussurro de seu nome num som distante que parecia cair nos telhados atrapalhando o sono dos vizinhos.

O cheiro de suor invadiu o espaço entre passado e presente, misturando recordações com desejos. Um relâmpago mostrou a silhueta dela sobre seu corpo, outro entregou que a sala estava vazia de amor. Com medo, fechou os olhos e segurou a lembrança pela cintura, pedindo para que aquilo nunca acabasse – exatamente como havia feito pouco antes de acabar.

Não entendia mais se os raios estavam no mundo ou dentro dele. A cada facho de luz, era como se pudesse olhar para dentro de si mesmo e descobrir que a chuva o havia deixado alagado dela. Dela e sua voz que gemia garoas. Dela e seu corpo que dançava tempestade. Dela e de suas promessas que o arrastaram feito dilúvio.

E de repente um trovão gritou com dor e saudade o nome dela, exatamente como havia gritado num passado distante, ao lado da mesma janela. Gritou seu nome e o pedido de que a chuva fosse para sempre e não durasse apenas quarenta minutos ou quarenta noites. E, tremendo de frio, encolheu-se nela apertando-a com força.

E quando seu lábio ofegante roçou a pele delicada dela, o Sol brilhou.

Abriu os olhos e viu que ela não estava ali. Encolheu-se na poltrona ao lado da janela, decidido a dormir o resto da madrugada ali mesmo, em busca de um cheiro há muito desaparecido.

E a chuva continuava a cair. 

3 leitores:

Elise Garcia disse...

Quando uma tempestade do lado de fora consegue fazer eco com a que tá dentro da gente, basta fechar os olhos pra tudo virar uma coisa só.

Belíssima crônica, Rob. <3

Igor Luiz disse...

Aí, cara... Eu te odeio, Rob...

Pqp.
Ainda hoje, há poucas horas aqui no trabalho, eu estava pensando nesse tema. Uma mistura de chuva e sexo.
Do caralho!

Eduardo Camargo disse...

Muito bom Rob, só elogios a crônica. Com sinceridade, Parabéns!

 

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